As crônicas sem frivolidades de Carlinhos

Jason Tércio
Correio Braziliense - 25/01/1996

Eis um livro que não apenas condensa os melhores e piores momentos de 1968, mas também desfaz uma lenda - a de que seu autor, José Carlos de Oliveira, era um boêmio inconseqüente e até reacionário. Diário da Patetocracia nos traz quase todas as crônicas dele publicadas diariamente naquele ano no Jornal do Brasil, no qual escreveu por 22 anos.

Temos aí o cronista capixaba criticando a ditadura militar, defendendo os protestos estudantis, indignando-se com a tortura, polemizando com poetas, músicos, cineastas, enfim, tomando posições, estimulando debates. Nem por isso ele deixa de percorrer os bares, os restaurantes e boates da moda, tornando-se um personagem folclórico nas noites da Zona Sul, um mito em Ipanema.

Temperamento difícil, Carlinhos de Oliveira, como assinava seus livros (quatro romances, três de crônicas e um de conto), foi mal compreendido numa época em que ser contra o regime implicava em ter um comportamento absolutamente austero e coerentíssimo. Tanto que a esquerda era dividida entre militantes e "esquerda festiva", os pequenos-burgueses, geralmente intelectuais, que teorizavam contra o governo sem comprometer-se com a luta prática, e bebendo o uísque de cada dia. Ser alegre era uma heresia política. Carlinhos foi o Dostoievsky da crônica brasileira, o cronista da miséria humana, do trágico. Não escrevia amenidades. Expunha suas contradições e angústias pessoais numa linguagem densa, não abdicando, porém, da leveza típica do gênero, mas injetando uma dimensão existencial nas suas reflexões sobre as loucuras e idiotices deste país.

Ele inventou o neologismo "Patetocracia" numa crônica “Contra a censura, pela cultura” (este seu título), publicada em 13 de fevereiro de 68, apoiando um protesto de artistas famosos no Rio, contra a ação dos censores (os "patetocratas") do governo. Mas recusava definir-se ideologicamente. Era de fato um anarquista. "Sou contra todos os governos". Era também contra o socialismo burocrático da então União Soviética.

Atacou a invasão da Tchecoslováquia pelos russos, condenou a guerra do Vietnã, louvou a democracia e a minissaia, denunciou o seqüestro da atriz Norma Bengell pela polícia política, defendeu Garrincha no início da decadência irreversível - "Garrincha que foi o herói de 1958, é hoje um pobre rapaz desempregado, gordo e cheio de dívidas. (...) Não recebeu nunca o que lhe é devido, sempre ganhou menos do que merecia". Exultou com o Tropicalismo, esculhambou a turma do poema-processo, que se via como super-vanguarda e que chamou a atenção naquele ano quando um dos seus líderes, Vlademir Dias Pino, queimou e rasgou livros de Carlos Drummond, João Cabral de Melo Neto e outros do mesmo quilate, alegando serem poetas velhos que precisavam ser substituídos pelos novos. Besteira, claro, sintomas de uma rebeldia equivocada.

Vivacidade e literatura

Um dos momentos mais interessantes do Diário da Patetocracia está, sem dúvida, nas crônicas sobre os protestos estudantis. Algumas foram escritas na redação enquanto Carlinhos ouvia o clamor da multidão na Avenida Rio Branco, onde ficava a sede do Jornal do Brasil. Daí a vivacidade e os detalhes do texto, numa linguagem ao mesmo tempo jornalística e literária.

Várias crônicas do livro falam de Brasília, para onde Carlinhos vinha ocasionalmente. Tinha amigos aqui: Oliveira Bastos, o ex-deputado Thales Ramalho, Reynaldo Jardim, D'Alambert Jaccoud. Uma vez veio em lua-de-mel, por recomendação médica, para reduzir os porres que estavam prejudicando sua saúde. Mas o cronista declarou ter descoberto que em Brasília se bebia mais que no Rio... E, ao contrário da maioria dos cariocas, nativos ou adotivos, Carlinhos nunca falou mal de Brasília. Pelo contrário, observou com isenção e prazer algumas características da cidade, como a segurança ("As crianças não têm medo de estranhos que tocam a campanhia"), a paisagem de "ficção científica", o céu "monumental, incomparável". (...) "Brasília não tem claridade, Brasília é um clarão".

O cronista que se dizia "brasileiro por fatalidade, temperamento e vocação", perscrutou os acontecimentos cotidianos do país com ironia e mordacidade, sem o humor de Stanislaw Ponte Preta, sem a poesia de Paulo Mendes Campos, sem a elegância estilística de Rubem Braga. O estilo de Carlinhos é tenso. "Sou um escritor instintivo; escrevo com o fígado e tenho excelente nariz. Estou sentindo cheiro de sangue", prenunciava ele dois meses antes da decretação do AI-5. Portanto, ler O Diário da Patetocracia é reexaminar os principais acontecimentos de 1968 não só no Brasil, mas no mundo; o cronista sempre esteve plugado também na cena internacional.

Segundo a pesquisadora Ângela Maria Dias, no recém-lançado Cronistas do Rio (Ed. José Olympio), o Rio de Janeiro de Carlinhos é o da especulação imobiliária, da televisão massificando modismos, do agravamento do autoritarismo político.

Carlinhos, falecido em 1986, foi o último representante da boemia literária carioca, que batia ponto na Antonio's, bar e restaurante do Leblon, uma mistura de Beirute e Carpe Diem, que graças a Deus mantêm vivo.

Militante dos sentimentos próprios e alheios

O escritor José Carlos Oliveira não teve leitores em quantidade para as suas qualidades

Ruy Castro
O Estado de São Paulo, 24/07/1999

Quase todo mundo é duplo de si mesmo, geralmente o seu oposto, e alguns disfarçam melhor do que outros. Mas José Carlos - na vida real, Carlinhos - Oliveira (1934-1986) não disfarçava e convivia muito bem e muito mal com essa duplicidade. Era de uma comovente fragilidade física (1,59 m e 53 kg em seu apogeu), mas de um atrevimento verbal de quem tinha o triplo do tamanho. Era feio, desleixado e de pouco banho, mas atraía meninas incríveis e perfumadas (média de idade, 20 anos e 1,75 m só de coxas) que, mesmo depois de dispensadas, continuavam ao seu redor, convivendo com as sucessoras e se sentindo responsáveis por ele.

Bebeu de uísque o equivalente ao mar de Ipanema e, em certa época, atirou-se a todas as drogas do mercado - mas escrevia a respeito, condenando-as, como se contemplasse a destruição de um corpo fora de seu espírito. Tom Jobim, seu irmão de copos públicos e papos íntimos, definiu-o: "É o rei da criação e porta-se como um mendigo." Outro amigo, o empresário César Thedim, que o ajudou de todas as maneiras, foi mais fundo: "Era um bicho na toca e a toca era ele próprio."

Mas o que de melhor e pior se disse de Carlinhos, com uma insistência que o irritava, é que era a grande promessa não-realizada da literatura brasileira. Não bastava que ele se identificasse com Lautréamont, Baudelaire, João do Rio, Dylan Thomas, Jean Genet, cada qual com a sua "maldição" ou marginalidade. Esperavam-se dele os romances que compusessem um painel da traumática vida urbana brasileira na segunda metade do século.

Carlinhos defendia-se dizendo que esse painel estava sendo penosamente composto nas crônicas diárias que publicava no Caderno B do Jornal do Brasil (o que ele fez de 1961 a 1983), crônicas estas que, se reunidas em livros, teriam o valor de romances. Uma parte delas saiu em coletâneas (Os Olhos Dourados do Ódio, 1962; A Revolução das Bonecas, 1967; O Saltimbanco Azul, 1979), mas não cumpriu aquela função. O próprio Carlinhos deveria saber disso porque finalmente se atirou à ficção. Mas seus quatro romances (O Pavão Desiludido, 1972; Terror e Êxtase, 1978; Um Novo Animal na Floresta, 1981; Vermelho 22, 1985) não tiveram leitores em quantidade para as suas qualidades.

Essa relativa indiferença machucou Carlinhos porque ele não viera ao mundo para ser ignorado. Em Vitória (ES), onde nasceu, seus artigos na imprensa local o fizeram crescer tanto que ele teve de sair de lá aos 18 anos, em 1952 - porque não cabia mais na cidade. Veio para o Rio e, em pouquíssimo tempo, já fazia parte da entourage que incluía os cardeais da cultura, Vinícius de Morais, Mário Pedrosa, Aníbal Machado, Otto Lara Resende. E por que não? Ele era um deles, mesmo que com um único par de meias e duas cuecas - carências que não escondia, tanto que esses foram os seus presentes de aniversário de 19 anos, dados por amigos do Bar Vermelhinho. Segundo Jason Térsio em sua magnífica biografia de Carlinhos, Órfão da Tempestade, ele abriu os embrulhos com exclamações infantis: "Minha meinha! Minha cuequinha!"

De certa forma, Carlinhos nunca deixou de ser o menino para quem o mundo existia para supri-lo de meias e cuecas, liberando-o de batalhar por elas. Isso se aplicou a tudo que fosse prático e material em sua vida: empregos, amigos, casas, mulheres, bebidas - itens que teve em grande quantidade e sem esforço, às vezes até desafiando o afeto que lhe dispensavam. Como, por exemplo, numa noite dos anos 60 em que, de molecagem, atirou pela janela o anel de brilhantes de uma namorada rica e fez com que uma sôfrega alta burguesia engatinhasse pela calçada da Avenida Delfim Moreira tentando recuperá-lo - em vão.

Em troca, o que Carlinhos deu ao mundo? Muito. Como cronista, foi um militante dos sentimentos, próprios e alheios. Chegou a ser uma leitura obrigatória da zona sul carioca nos anos 60 e boa parte dos 70 - uma espécie de psicólogo amador da juventude, necrólogo das ilusões perdidas de Ipanema pós-1964 e cobaia política da sua geração. Depois de Nélson Rodrigues, foi o mais "jornalista" de seus colegas do primeiro time de cronistas, ainda que sem a transcendência e a regularidade de Nélson. Mas, a exemplo deste, se devidamente situado entre datas, pode ser de leitura maravilhosa, como na antologia póstuma O Diário da Patetocracia (Graphia, RJ, 1995), com crônicas de 1968. Talvez melhor do que ninguém, Carlinhos refletiu nossa trêmula relatividade de julgamentos, nosso medo de formar opinião e demais mazelas (da direita e da esquerda) que assolaram a vida cultural brasileira durante a ditadura.

Como romancista, foi tão absurdamente confessional em O Pavão Desiludido que poucos se deram conta de que tudo que ele contava ali era real: o pai, soldado da PM capixaba, que se matou dias depois de estuprar a filha de 9 anos, a qual morrera de hemorragia; a mãe, humilde lavadeira que ele, Carlinhos, abandonou com os irmãos menores quando ela se casou de novo e teve um filho desse casamento. "Vomitei minha mãe", ele escreveu. Carlinhos guardou esses segredos nas entranhas durante décadas de vigília cotidiana nos bares do Rio, partindo do Gôndola, da Fiorentina e do Alcazar, em Copacabana, nos anos 50; passando, no seu auge profissional, pelo Mau Cheiro, o Zeppelin e o Veloso, em Ipanema, nos anos 60; e, a partir daí, desaguando no Degrau, no Luna e no Antonio's, no Leblon - o Antônio's que ele usou como botequim, casa, redação, banco, rendez-vous, urinol e principalmente útero, mas do qual acabou expulso e proibido de freqüentar.

Nos seus últimos anos de vida, ele também lutou para expulsar o Carlinhos Oliveira que habitava em José Carlos Oliveira - contra quem praticou crueldades muito piores do que as que se acusava de ter praticado contra os outros. Nesta luta final pelo que julgava ser a sua redenção, migrou de vez da "esquerda" para a "direita"; perdeu sua longa batalha contra Deus, convertendo-se aos santos e anjos católicos; em busca da "pureza", trocou (efemeramente) Ipanema por Vila Isabel e (definivamente) uísque por chá e o Rio por Vitória. Mas, então, já era tarde para vencer a tremenda devastação física - ao morrer, aos 51 anos, aparentava 80. Era um atormentado que fingia rir de si mesmo e seu castigo era saber que José Carlos Oliveira nunca converteria em imortal literatura tudo a que Carlinhos Oliveira fazia jus.

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